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Perfil

Telmo Zanini

Jornalista, 55 anos

Jornalista esportivo desde 1971, trabalhou na Zero Hora, Folha da Manhã (RS), Jornal da Tarde (SP), Placar e na TV Globo desde 1985 onde foi chefe de redação do Esporte. Atualmente, Telmo Zanini é comentarista do SporTV. Participa da cobertura da Copa do Mundo desde 1978 e esteve nas cinco últimas acompanhando a seleção brasileira.
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LONDRES, CASA DA SELECÃO E SEDE DO CORINTHIANS



Caras navegadoras, caros navegadores...



Todas as mentes, todos os lábios tinham uma única pergunta antes do jogo entre Brasil e Pais de Gales no aconchegante White Hart Lane, o estádio do Tottenham Hotspurs: será que na sua volta `a Seleção Ronaldinho vai conseguir finalmente mostrar o futebol que joga no Barcelona? Quase todos vocês devem ter visto o jogo aí no Brasil, ou pelo menos os melhores momentos mais tarde. Pois daqui posso dizer que ele se esforçou muito, procurou se deslocar, ser solidário com o time, mas acabou saindo de campo na metade do segundo tempo sem ainda ter conseguido a atuação que todos esperavam. É verdade também que a qualidade do futebol dele é tanta que ele já conseguiu encantar todas as platéias da Europa. Mesmo aqui na Inglaterra onde eles acham que jogam o melhor futebol do mundo e confundem o poder da libra (4 reais) com o poder dos seus jogadores, Ronaldinho é um dos poucos estrangeiros reverenciados como fora de série. Por isso foi o mais aplaudido na hora que o sistema de som do estádio anunciou as escalações, foi o mais aplaudido quando o time entrou em campo, e era aplaudido delirantemente pela galera que fica atrás dos gols quando ia cobrar um escanteio. E deve ter cobrando uns 8 ou 9 para delírio geral.



Não foi um jogo de casa cheia como domingo, talvez metade dos 40 mil lugares estivesse ocupada, e uns 5 mil pela animada torcida do País de Gales, o país, ou a Seleção que teve a honra de sofrer o primeiro gol marcado pelo Rei Pelé em Copas do Mundo. A foto deste gol, de um ângulo que eu nunca tinha visto por sinal era a contracapa do elegante programa do jogo vendido a três libras. E certamente quem esteve no estádio se não levou uma lembrança tão impressionante como a do gol de Pelé marcado há 48 anos, pelo menos voltou sorridente para casa nos ônibus de dois andares e nos vagões do metro com três lances assinados pelo atual melhor do mundo. Primeiro uma série de gingas e dois dribles logo no início do primeiro tempo saudado com aplausos, depois com uma inversão de jogo, com um passe de 50 metros, contemplado com um sonoro 'Oh'Oh'Oh'Oh. E por fim com a jogada que executou aos 21 do segundo tempo, pouco antes de ser substituído por Robinho, entrou na área, tabelou, enviou um zagueiro e chutou com um efeito magnífico no canto esquerdo do goleiro. Passou a duas polegadas da trave. Ronaldinho merecia aquele gol, o público também merecia, mas o reconhecimento veio em seguida. Foi aplaudido de pé quando saiu de campo um minuto mais tarde. Tenho certeza que Ronaldinho vai saber dar a volta por cima, vai superar esta fase de mais de um ano sem marcar na seleção, pois como disse na entrevista coletiva que concedeu ontem à tarde no hotel da seleção, até a Copa já sabe que terá que matar um leão por dia. E na África do Sul espero que mate o bando inteiro deles.

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Agora um pouco da nova seleção. Dunga deixou claro qual será o seu esquema de jogo. Quatro zagueiros, dois volantes de contenção para permitir a subida dos laterais, um meia, mais recuado, um outro mais avançado, um atacante que volta e joga quase como um meia, e só um homem fixo na frente, além do goleiro é claro. Arriscaria que depois deste 3 primeiros jogos o time titular de Dunga é Gomes; Cicinho, Lucio, Juan e Gilberto; Edmilson, Gilberto Silva, Elano e Kaká; Ronaldinho (Robinho) e Fred.

Kaká outra vez foi muito bem e vai assumindo o posto de regente, de diretor de bateria (como convém a uma seleção Brasileira) e também de liderança no time. Dunga quer que os jogadores falem mais em campo, conversem mais fora dele, se relacionem melhor, e não foi por acaso que quando Edmilson saiu no intervalo a braçadeira de capitão foi para o jogador do Milan. Por sinal a impressão que se deu é que Kaká, e a braçadeira de capitão, foram feitos um para o outro

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Muita gente pergunta pelo ambiente na seleção, como estão os jogadores diante do método Dunga de não definir o time titular e de fazer modificações a cada jogo? Ecos vindos do Brasil chegavam até aqui totalmente distorcidos. Procurei conversar com os mais experientes, os que já viveram outras épocas e trabalharam com outros treinadores. Os jogadores consideram Dunga muito mais próximo a eles do que Parreira. Entende a linguagem, fala o mesmo idioma, já esteve em campo com a amarelinha e por isso tem não só o apoio como o respeito do grupo. Os boleiros estão torcendo para que dê certo.

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Torcedor bem humorado é uma das dádivas do futebol. Cruzo com um na saída do estádio que diz: "Viemos aqui para buscar seis pontos e conseguimos. Seguimos em primeiro."

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Abusando da paciência de todos ainda vou me alongar mais um pouco, mas preciso falar do Corinthians. Tevez e Mascherano aparecem em todos os jornais daqui exibindo as camisas que vão vestir no West Ham: Tevez a 32, Masc a 16. Hoje Carlitos tentou aliviar a sua barra com o Corinthians e elogiou torcida e diretoria. Nos jornais de ontem ele e Kia desciam o pau nos diretores corintianos. Kia dizendo que foi traído, que o Corinthians não cumpriu o que prometeu. Tevez seguindo o mesmo discurso.



Durante esta rápida estada da seleção aqui em Londres encontrei o presidente Alberto Dualib e o vice Nesi Curi todos os dias. Conversei muito com eles, escutei uma infinidade de histórias e fiquei sabendo que continuam aqui na capital inglesa pelo menos até domingo. Seu Alberto sequer sabia que o Corinthians tinha vencido a Ponte com um gol de pênalti tremendamente duvidoso. Ele tinha se queixado que os juizes estão perseguido o Conrinthians um dia antes. Nada como um dia apos o outro...

Pois nesta terça, na hora do almoço, no mesmo hotel onde está a seleção, seu Alberto me disse: “Pode escrever que o Kia não volta mais ao Brasil. Estamos tratando de arrumar o substituto. Ele indignou a todos, a nós e a MSI. O resultado da gestão dele é uma dívida de 20 milhões de reais. Estamos aqui tentando recuperar este dinheiro e vamos conseguir, a parceria continua. Sem o Kia."

Sai Kia e deve entrar Renato Duprat, que terá muitos problemas para resolver logo em seguida. O principal é que os jogadores da MSI não recebem o dinheiro pelo direito de imagem há 4 meses. É por isso tudo que o Corinthians deveria pensar em ter uma sede em Londres. Nos próximos anos muitas questões importantes serão resolvidas aqui.



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Um por todos, e todos por um



Caras navegadoras, caros navegadores

Muita coisa mudou na Seleção Brasileira de junho para cá, e a cada dia quem acompanha o trabalho vai se dando conta das pequenas mudanças, a dinâmica dos treinamentos, a forma de se relacionar com os jornalistas e as demais pessoas que freqüentam o dia-a-dia da Seleção, a valorização dos demais integrantes da Comissão Técnica e até a rotina, a programação do dia-a-dia. Dunga vai surpreendendo, mostrando que se ainda não tem experiência como treinador, ele continua um mestre na arte de comandar pessoas, de liderar um grupo.

Ontem a noite aqui em Londres aconteceu um belo exemplo disso. A Seleção tinha o jantar marcado às 8 horas no hotel onde está hospedada, em Park Lane. Os jogadores desembarcaram do ônibus voltando do treinamento às 8:40, foram jantar quase às nove. Em outros tempos o horário era "imexível", como dizia aquele velho ministro, o atraso teria causado resmungos e discussões, agora, nada de trauma. O treino em White Harte Lane, o estádio do Tottenham, bem ao norte de Londres, acabou mais tarde do que o previsto. Dunga não anunciou oficialmente a escalação, mas como botou os titulares diante da Argentina apenas para correr em volta do gramado (exceção de Cicicinho, pois Maicon está machucado) e treinou com os dez reservas de ontem, ele achou conveniente dar uma explicação aos jornalistas.

Jogadores já no ônibus, caminho longo a percorrer e Dunga convoca uma coletiva onde a atração não era ele, mas o preparador físico Paulo Paixão e o medico Jose Luis Runco. Os dois foram explicar (e praticamente definir o time para amanha) que 48 horas é muito pouco tempo para recuperar os jogadores, que a Seleção tem a preocupação de não machucar os jogadores, de devolvê-los aos seus clubes, tão bem, ou melhor do que quando chegaram, e o Dr. Runco aí citou o caso de Ronaldinho. Veio sem condições, volta inteiro para o Barcelona.

Foi uma atitude transparente, nada de mistérios, nada de segredos desnecessários. Todo mundo ficou satisfeito com os ares de modernidade, de chegada do século 21, finalmente, aos hábitos e costumes do melhor futebol do mundo.Na pequena sala de entrevistas do Tottenham um repórter da RAI, a tv italiana estatal, que acompanhou todo o treinamento e jogos da Seleção na Alemanha sintetizou a mudança antes de uma pergunta que fez para o próprio Dunga.

"Mudou a dinâmica do trabalho, mudou o ritmo, parece ter mais cobrança, mais empenho e mais transpiração nos treinamentos. Os jogadores são mais exigidos e ninguém tem lugar garantido". Dunga desconversou que evitar comparações com o passado, mas a verdade é que não só os jogadores trabalham mais. Antes do jogo com a Argentina Dunga e Jorginho assistiram a 15 partidas do Boca Juniors treinado por Coco Basile, não conheciam o trabalho do argentino, queriam conhecer o raciocínio dele diante das situações de jogo, entender os esquemas e as modificações que fazia. Quarta-feira pela manha Dunga e Jorginho viajam a Paris onde vão assistir a Franca x Itália pelas eliminatórias da Eurocopa 2008. não perdem tempo, quinta vão a Bordeaux, encontro com o amigo e ex-colega de Seleção Ricardo Gomes, técnico dos Girondins de Bordeaux. Querem saber sobre o jogadores brasileiros em atividade na Franca e especialmente observar o meia Fernando, cria do Juventude que saiu do Brasil há quase dois anos. Depois o destino ser'a a Espanha e mais jogos, mais conversas. Sem comparações esta dupla 'e muito dinâmica e aos poucos vai mostrando a sua competência. Já recuperaram a confiança do torcedor agora 'e dar tempo ao tempo.

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Depois do golaço de Kaká os reservas da Argentina e alguns integrantes da comissão técnica partiram para a baixaria explicita contra a seleção. Foram cenas que a tv inglesa não mostrou. Gestos obscenos, palavrões, ameaças. Na sala das entrevistas coletivas, onde jogadores e técnicos se cruzam um argentino tentou dar uma rasteira no assessor Rodrigo Paiva. Se não estivesse atento Rodrigo teria ido ao chão.

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Nenhum craque gosta de ficar na reserva e não foi diferente com Kaká. Porém ele, que a cada dia vai se firmando como a nova liderança da seleção, deixou claro o que pensa: "Se o critério for sempre esse e valer para todos, estou de acordo".

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Surgiu a figura do vilão da novela entre Ronaldinho e o Barcelona. Chama-se Johann Cruyff, que a exceção de Romário, nunca escondeu o seu rancor e o desprezo que tem pelos jogadores e pelo futebol brasileiro. Eminência parda e com poderes cada vez maiores no Barça, Cruyff não suporta o fato de estar sendo ultrapassado por Ronaldinho como o grande ídolo da torcida e o maior jogador da historia do Barça. A barracão contra o Celta Vigo na abertura do campeonato foi tudo obra do malvado vilão, que para quem conhece bem 'e capaz de cometer maldades que deixariam as vilas das nossas novelas com inveja. Ronaldinho precisa ficar muito atento, pois Cruyff já conseguiu botar gente dele tanto na preparação física quanto no departamento medico do Barcelona. Além de jogar dentro do campo o dentuço simpático vai ter que jogar muito fora de campo também.

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Porque não dá para comparar o futebol brasileiro com o Europeu? Porque é impossível segurar os nossos craques? Sabem quanto foi a renda de Brasil x Argentina? Algo em torno de dois milhões e meio de libras, ou seja, uns 10 milhões de reais. É mais ou menos isso que o Arsenal fatura cada vez que joga em casa.

Entre ingressos, aluguel dos camarotes, venda dos direitos de tv para o mundo todo e ainda publicidade estática e bares, os especialistas calculam que os organizadores faturaram quase o dobro. O custo de tudo ( cada time levou 750 mil euros), os impostos, as despesas também são altas, mas quem faz futebol com competência pode ter resultado. Ainda mais em uma economia de primeiro mundo.
Escrito por Telmo Zanini em às
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Caras navegadoras, caros navegadores

Benditos os deuses do futebol, bendita esta dualidade onde de um lado está a tristeza imensa, a desolaçao da derrota, e do outro, no alto da gangora a alegira, a emoçao indescritível da vitória. Como escreveu (e cantou) o rei Roberto Carlos o importante é que emoçoes eu vivi. E que emocao vivi hoje aqui em Londres no estádio do Arsenal!! Sinceramente nao esperava que o coraçao voltasse a bater tao forte ainda este ano. Foi uma tarde inesquecível que ficará na historia do clássico entre Brasil e Aragentina que ficará na memoria dos quase 60 mil torcedores que estavam no Emirates Stadium, uma tarde em que o Brasil mais uma vez provou dentro de campo por que é considerado o melhor futebol do mundo.

Fui para o estádio sem esperar muito , um tanto descrente, acreditando até em um leve favoritismo da Argentina. Desci do metro na estaçao de Holloway e sai caminhando entre pequenas colonias de brasileiros e argentinos, entre cambistas e vendedores de produtos piratas, camisas dos times, gorros,até chegar ao estádio tudo muito parecido com o que vemos no Patropi, porém é só se aproximar do estádio e aí parece abrir a porta do mundo encantado. Tudo organizado, tudo funciona, guardas bem treinados, porteiros que prestam todas as informaçoes, bares limpos e a vontade, banheiros que parecem de um hotel cinco estrelas e aí , vendo os torcedores ingleses circulando já dentro do estádio, veio a surpresa que aos poucos se transformou na primeira emoçao. Os torcedores do Arsenal estavam todos torcendo para o Brasil, a maioria vestia a famosa camisa canarinho e quando os times entraram em campo parecia que a Selecao jogava em casa. Está certo que o fato do Arsenal ser o time de Gilberto Silva ajuda, que a contrataçao de Julio Batista no início da semana ajudou mais um pouco no surgimento destta cumplicidade , deste apoio, e aí o primeiro gol, logo aos 2 minutos fez com que os torcedores ingleses se rendessem de vez e dedicassem todo o seu entusiasmo para incentivar os brasileiros, e ainda para vaiar Carlitos Tevez e Javi Mascherano, recém contratados pelo West Ham, modesto rival londrino. O entusiasmo chegou a tal ponto que logo depois do segundo gol brasileiro os torcedores ingleses fizeram uma boa associaçao entre a Argentina e o detestado Chelsea, os dois azuis , e aí começaram a cantar: STAND UP IF HATE THE BLUES, ou seja, fique de pé se voce odeia os azuis. Todos entao se levantavam, aplaudiam as jogadas da Seleçao, gritavam o olé nas trocas de passes. O clima de excitaçao , de agradecimento do torcedor a Selecao pelo bom futebol praticado foi num crescendo como no último ato de uma ópera, pois estava sendo construído o ambiente para o grande finale, para a jogada magnífica, o lance de genio que foi o gol de Kaká. Na tarde quente de céu azul londrino o gramado de repente parecia um oceano de águas calmas e Kaká um soberbo veleiro com todas as velas infladas pelo vento que soprava a favor. Magnífico na sua rota foi deslizando, singrando a grama, impossível de ser parado até atingir o objetivo final. E aí na chegada ao cais, o toque suave que levou o jogador argentino a ser envolvido pela própria rede.

Foi demais, muita emoçao. A Seleçao jogou o futebol que esperávamos que tivesse jogado na Copa. Dunga, o capitao do tetra já conseguiu muito, em tao pouco tempo, mas terá ainda muito trabalho pela frente, mas esta foi uma vitória emblemática e muito importante pois devolveu rapidamente ao torcedor e ao jogador brasileiro a confiança perdida na Alemanha há pouco mais de dois meses. Escrito por Telmo Zanini em às
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UM CLÁSSICO DA AMÉRICA
PARA INGLÊS (E O MUNDO) VER


Caras navegadoras, caros navegadores.

Em Londres já passa da meia-noite. A balada da sexta-feira ferve ao redor de Park Lane, uma das zonas mais chiques da cidade onde fica o hotel da Seleção Brasileira. Muita gente nas ruas, filas nas portas dos clubes noturnos, a cidade normalmente agitada e com uma opção sem fim de atrações, ferve ainda mais com estes dias quentes do verão que vai terminando. Garotas de minisaias, com as barriguinhas de fora seguindo a moda mundial, jovens, nem tão jovens e coroas desfilando todas as tendências de se vestir e comportar.

Londres, porém, é sem dúvida a mega cidade menos barulhenta do mundo. Impressiona como se procura fazer silêncio, não perturbar a tranqüilidade dos outros. E também é a mega cidade que mais importância dá ao futebol, que tem mais clubes, mais estádios e muito mais dinheiro para investir no esporte. Até mesmo as velhinhas de 80 anos falam de futebol nas rodas de chá e biscoitos. E conhecem os esquemas táticos, criticam o English Team e enaltecem os seus clubes.

Pois foi um dos mais modestos deles, o West Ham, que ganhou as primeiras e as últimas páginas dos jornais desta sexta por ter concretizado no último dia do mercado a compra dos ex-corintianos Carlitos Tevez e Javi Mascherano. Encontro o presidente Alberto Dualib na porta do mesmo hotel onde está a Seleção, acompanhado do vice Nesi Curi e do assessor e talvez futuro homem da MSI, Renato Duprat.

O Presidente não está contente. Revela que na negociação que se estendeu até o meio da madrugada a parceira corintiana cedeu de graça os dois jogadores para o West Ham e ainda irá pagar os salários deles durante um ano. Faz duras críticas a Kia Jorabichan e afirma que os dias dele na MSI estão contados. Kia não volta ao Brasil, talvez nem fique na MSI segundo Dualib. Algumas fontes da imprensa inglesa, porém, revelam a intenção dos donos da MSI de investirem pesado no West Ham e até de comprarem o clube e aí Kia estaria mudando de cidade. O presidente está satisfeito com as aquisições de Amoroso, Magrão e na última hora do lateral Cesar, mas diz que ainda faltou o centroavante, e que faltou também Zé Roberto.

- Ele estava acertado com o Corinthians, ai o São Paulo atravessou e no último momento surgiu o Santos com uma proposta irrecusável. Nos iríamos pagar 200 mil dolares por mês ao Zé roberto, o Santos ofereceu 300 e levou.

Muitas conversas, muitas especulações como convém a um final de verão, aos tempos de clima quente. E não é diferente na Seleção. Ronaldinho Gaucho, por exemplo, chegou no meio da tarde de cara amarrada, sem o costumeiro sorriso. Não deu entrevistas, subiu direto para o apartamento do 20º andar e de lá não saiu. Os jornalistas de Barcelona que vieram em peso para acompanhar o jogo contam que a barra pesou para ele no clube.

Ronaldinho Gaúcho compareceu a um evento de um dos seus patrocinadores na manhã da última sexta-feira, dia do jogo contra o Sevilha pela Supercopa da Espanha. O Barça perdeu, ele andou em campo e aí alguns companheiros e muitos torcedores insinuaram que faltou concentração e empenho da parte do melhor do mundo. Daí a derrota. Foi o pontapé inicial para o bate-boca e por isso ele acabou não jogando na abertura do Campeonato Espanhol. Não está machucado, nem brigou com Rijkaark, o técnico. Tem condições e deve enfrentar a Argentina amanhã.

Como sempre este jogo não será um amistoso. Craques em conflito dos dois lados, dois técnicos que começam os seus trabalhos, um estádio de 800 milhões de euros lotado, o mundo inteiro com a atenção voltada para Londres. Com outros personagens, a partida que muita gente sonhava ver na final da Alemanha vai acontecer agora, quase dois meses. Não é exagero dizer que será o jogo de maior apelo deste segundo semestre em todo o futebol mundial. A Argentina já treinou hoje, e em dois períodos, Carlitos e Masc estão felizes. O Brasil só treina amanhã. Pouco tempo para Dunga que ainda não definiu quem joga. O coração já começa a bater mais apressado. Escrito por Telmo Zanini em às
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NÃO QUERO DESCER DO MUNDO



Caras navegadoras, caros navegadores...

Esta semana não teve jeito, procurei fazer contato com o imortal Raulzito, o Raul Seixas, e agradeci a ele por ter nos deixado o mantra "parem o mundo que eu quero descer”. Não faço parte da corrente filosófica que defende a tese de que a raça humana se trata de um projeto do Criador que fracassou, mas a verdade é que muitos dos nossos semelhantes parecem que empregam todo o seu talento no sentido de provar que isso é uma verdade. Não quero aqui falar das guerras, das tréguas desrespeitadas, das explosões que acontecem por toda a parte, de mulheres serradas ao meio e muito menos de artistas, músicos e intelectuais que se reúnem para justificar a desonestidade e a falta de ética.

O fato de gostar de esporte nos faz cultivar uma certa ingenuidade, nos faz manter algumas esperanças infantis, um espírito de criança. Como todo esporte têm regras, e elas devem ser respeitadas, acreditamos que isso poderia acontecer também nos demais setores da sociedade, e quase sempre cobramos atitudes corretas dos esportistas quando eles cometem meros deslizes que passam despercebidos em outros setores da atividade humana. Ao definir o futebol, o grande escritor peruano Mario Vargas Llosa disse:

"O futebol é o ideal de uma sociedade perfeita: poucas regras, claras, simples, que garantem a liberdade e a igualdade dentro do campo, com a garantia do espaço para a competência individual".

Creio que todos nós, amantes do futebol e dos esportes, acreditamos nisso. Além da diversão procuramos encontrar pelo menos em algum lugar a justiça, a obediência às regras, o respeito ao adversário e, sobretudo a preservação do talento. O craque, ou seja, o artista, deve ser respeitado, cultuado, e protegido pelo cumprimento das regras. No fundo estamos cultivando a utopia de que o mundo pode ser justo e que um dia os valores do esporte serão disseminados e conseguirão se impor em outros setores da sociedade.

Sérgio Porto, jornalista, cronista esportivo, escritor autor de crônicas inesquecíveis criou nos anos 60 o FEBEAPA, que vinha ser o Festival de Besteiras que Assola o País. Tempos duros, mas românticos. Hoje o grande Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio) teria que criar o FECAIPA, ou seja o Festival de Cafajestadas que Invade o País. Tudo é permitido, agredir, atropelar, esquartejar, guilhotinar a ética. Vale tudo e então a moral desta turma ganhou tanta força, se espalhou de tal maneira que estamos vendo os esportistas também se comportando como cafajestes, desprezando as regras do jogo, afrontando as autoridades (os árbitros), querendo vencer de qualquer jeito.



Para ficar no futebol, que é o nosso esporte de maior divulgação e que dita os costumes, vamos verificar que os nossos jogadores cometem faltas horrorosas, dão carrinhos criminosos e acham isso normal. Se são expulsos, saem de campo reclamando, dizendo que não fizeram nada. Nossos treinadores não satisfeitos em apenas dizer palavrões para árbitros e auxiliares agora partiram também para as ameaças. Os dirigentes, quando são favorecidos no resultado por algum erro da arbitragem, ficam quietinhos, mas no jogo seguinte, diante de um erro contra reclamam acintosamente. De uma forma geral, está se criando um clima muito grande de intolerância que é engrossado ainda mais pelo comportamento agressivo e belicoso de algumas torcidas. Momentos de perigo para o velho esporte bretão.

A toda hora vemos jogadores rosnando para os árbitros como cães raivosos, chutando a bola nos adversários caídos, se jogando na área para cavar pênalti. Chegamos a um ponto que é preciso criar com urgência um movimento pela recuperação da ética, do respeito às leis do jogo, a autoridade do árbitro. Viva o espírito esportivo, o cavalheirismo, o fair-play. Jogo limpo, honestidade já. Senão, em pouco tempo vamos todos ter que pedir ao Raulzito que pare o mundo pois queremos descer.
Escrito por Telmo Zanini em às
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