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Perfil

Telmo Zanini

Jornalista, 55 anos

Jornalista esportivo desde 1971, trabalhou na Zero Hora, Folha da Manhã (RS), Jornal da Tarde (SP), Placar e na TV Globo desde 1985 onde foi chefe de redação do Esporte. Atualmente, Telmo Zanini é comentarista do SporTV. Participa da cobertura da Copa do Mundo desde 1978 e esteve nas cinco últimas acompanhando a seleção brasileira.
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GRÊMIO vice-líder? OBINA três gols no mesmo jogo? Não foi sonho, não...


Caras navegadoras, caros navegadores...

Uma e meia da madrugada desta segunda, o sono estava começando, ainda com o eco das mesas redondas das tvs italianas, onde todo mundo fala ao mesmo tempo, e os tons da vozes sobem tanto que atingem níveis só escutados nas óperas, ou nos mercados de peixe. Aí toca o telefone:
- Alô, pai?
- Fala filho...
Ele percebe a voz quase de sono.
- Você já estava dormindo né? Então continua, pois amanhã você vai achar que foi um sonho. O Grêmio é o vice-líder do Campeonato e o Obina marcou três gols lá em Fortaleza. Boa-noite.

Antes de deitar já tinha visto pelo - Globoesporte.com - os gols dos jogos das quatro horas, a vingança do São Paulo em cima do Inter, a confirmação da liderança do tricolor paulista. Tinha visto também o Grêmio, com o excelente Rômulo também com três gols, mas pelo final dos jogos das seis da tarde não deu para esperar, o sono chegou antes. De manhã cedo, porém, já estava na internet vendo os gols do Obina, o pênalti que deu a vitória a Ponte e enfim, a primeira vitória do Fluminense com Antonio Lopes. Ah, e antes que esqueça, o belíssimo gol do Reinaldo, o segundo do Fortaleza, um gol que Pelé assinaria tranqüilamente.

Vejam como o futebol é curioso, o esporte que na prática se encarrega de desmontar todas as teorias e conceitos, por mais bem elaboradas e justos que eles sejam. Obina, que até o início do ano era motivo de chacota no Flamengo agora é o Salvador da Pátria, o melhor atacante, o xodó da torcida. A grande esperança de livrar o time rubro-negro do rebaixamento que a cada ano anda batendo a porta. Depois que ele emagreceu e ganhou físico de atleta outra vez venho dizendo há muito tempo (e quem acompanha o Troca de Passes e o Redação no SporTV é testemunha), que se trata do melhor atacante da Gávea. Luizão é ex-jogador, a Vinícius Pacheco falta experiência, Sávio não tem contundência e o tigre paraguaio Ramirez e o travesso uruguaio Peralta eram duas invenções, brincadeiras de mau gosto com a torcida. Já o Grêmio, quem também acompanha o SporTV e lê estas linhas, sabe que desde o começo do Campeonato e até a interrupção para a Copa, eu dizia que iria lutar para não cair. Ainda bem que o técnico Mano Menezes também achava e disse isso depois da derrota para o Figueirense quase no fim do mês de julho. Ai veio o Grenal dos banheiros incendiados, 0x0, o Grêmio no pé da tabela, o Inter entre os primeiros e indo decidir a Libertadores com o São Paulo.

A boa fase do Inter sem duvida foi o principal motivo que levou a diretoria do Grêmio a contratar, a trazer Rômulo, Hugo, Léo Lima, William, e a fechar os ouvidos para as propostas que queriam tirar Lucas do Olímpico. Com estes jogadores e a troca do goleiro Mano Menezes acertou o time que culminou ontem, no encerramento da semana que comemorava os 103 anos de fundação do "imortal tricolor", como escreveu Lupiscinio Rodrigues, com a soberba goleada de 4x0 sobre o Botafogo. Nos últimos dez jogos foram oito vitórias, 25 pontos, um empate, uma só derrota. Uma campanha de fazer inveja, creio mesmo que a melhor do Brasileiro nas dez últimas rodadas. Tinha feito 17 pontos nas primeiras 14 rodadas, que contraste!!

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Os colorados podem argumentar que o Inter tem um jogo a menos, o Paraná em casa, e que poderia estar na frente do tricolor, mesmo tendo poupado alguns jogadores nas rodadas do Campeonato que coincidiram com a decisão da Libertadores, e ao contrario do tradicional rival, que trouxe jogadores, o Inter perdeu quatro dos seus cinco melhores jogadores. De qualquer forma me parece difícil que tanto um quanto o outro tenham forças para alcançar e superar o São Paulo na briga pelo título. Vocês podem raciocinar que ainda faltam 15 rodadas, 45 pontos a serem disputados. Qualquer time pode conseguir uma campanha como a do Grêmio e chegar nos líderes, tamanho o nivelamento técnico da competição. Poder pode, mas o São Paulo (pelo que tenho ouvido de amigos) confirma a impressão também externada aqui de que o quarteto Mineiro, Josué, Danilo e Junior não poderia seguir jogando em nível tão baixo para sempre. Parece que estão melhorando jogo a jogo, que Lenilson também vai ser firmando, que Thiago botou a cabeça no lugar, e com ela em pé executou o maravilhoso passe para o primeiro gol de ontem contra o Inter, e ai gente o São Paulo é um pouco melhor do que os demais e dificilmente deixara escapar esta vantagem. O vacilo contra o Corinthians deve ter servido de lição.

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Trinta por cento a menos de publico nos estádios em relação a temporada anterior. Times que não encontram patrocínio e jogam com a camisa limpa como antigamente. Estádios antiquados que não oferecem segurança aos torcedores, nem condições para uma boa transmissão para os jogos pela tv, além de banheiros sujos e bares totalmente caóticos. Faturamento quase nulo com venda de camisas, souvenirs e outros artigos ligados aos clubes por falta de lojas adequadas. Famílias que deixam de ir aos jogos preocupadas com a violência das torcidas organizadas. Autoridades que não sabem como reagir.

Com certeza vocês devem estar pensando que estou falando do futebol brasileiro, mas não é nada disso. Isto é a radiografia do futebol italiano traçada pelos repórteres da revista semanal El Expresso que está desde ontem nas bancas. Quarta-feira, no Redação do SporTV vou mostrar a reportagem e comentar a crise que atinge o futebol campeão do mundo.
Escrito por Telmo Zanini em às
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O CRAQUE VOLTOU A SORRIR


Caras navegadoras, caros navegadores

Tem um livro muito interessante chamado "A arte de viajar", onde o autor - Alain de Botton - escolhe vários personagens famosos que gostavam de viajar e conta as experiências deles, misturadas com as experiências dele, que também gosta de viajar. Um destes personagens é o escritor francês, Gustave Flaubert. Nascido no interior da França, Flaubert detestava o seu país de origem, os modos e os costumes especialmente da burguesia e tinha uma especial atração pelo Egito. Viveu lá vários anos, se vestia como egípcio, tinha um professor particular com quem passava duas horas por dia para aprender a língua e os costumes locais. Por fim até arrumou um nome egípcio.

Desde 1990 quando encontrei as raízes dos meus bisavós aqui na Itália e depois, quando consegui o passaporte italiano (fosse mais novo e até tentaria a sorte em algum clube da série B), me sinto um tanto italiano também. Não se trata de um exotismo como o de Flaubert, pois 6 dos meus 8 bisavós eram italianos. Por isso, toda vez que tenho oportunidade, procuro vir para cá e aprender um pouco mais sobre este povo e este país. Quando se fica só na superficialidade, pedir informações nas ruas, os pratos nos restaurantes, ou fazer alguma pergunta nos museus, a gente acha que sabe muito, mas quando começa a partir para o dia-a-dia, a conhecer a realidade, ler os jornais, ouvir os relatos das pessoas, a realidade é outra, a começar que o italiano é completamente diferente do português e aprender os verbos não é nada fácil. As dificuldades se tornam maiores por que os italianos (as) são os reis do discurso, da análise. São críticos ferrenhos em todos os setores da atividade humana e isso chega a extremos no futebol. Perguntem aos nossos grandes jogadores que andaram por aqui. Perguntem a Sócrates, a Renato Gaúcho, a Ronaldo e a Roberto Carlos. Não basta jogar bem, tem que jogar bem sempre, e são rigorosos também com os da casa. Bastou Totti e o capitão Cannavaro fazerem más apresentações e já está a crítica toda descendo a lenha neles.

Por isso é de ficar admirado com o tratamento que a crônica esportiva, os torcedores e até os adversários dispensam a Kaká. O ex-meia do S.Paulo é tratado com deferência, com admiração, ainda não dizem abertamente, mas sem dúvida no momento é considerado o melhor jogador do futebol italiano e tem muita gente querendo afirmar que Kaká já é o melhor do mundo. Se continuar jogando como domingo passado contra o Lazio, ou principalmente como na quarta-feira, contra o AEK não vai demorar muito para isso. Com o Kaká de quarta-feira certamente a história do Brasil na Alemanha seria bem diferente. Kaká foi tudo aquilo que a gente esperava ver, e com extrema admiração, tremendo carinho os locutores da tv italiana ainda lembravam do gol que ele marcou na Argentina. "Parecia um cavaleiro, em galope triunfal sobre as linhas inimigas". Uma cavalga (termo que também usaram) de 70 metros, que terminou com um dos gols mais belos dos últimos tempos. A empolgação dos locutores foi crescendo a medida que Kaká ia desfiando o seu rosário de grandes lances, como a cruzada para o gol de Gourcuff, o primeiro, a cobrança do pênalti, onde encerrou o placar, e depois, no lance mais bonito da partida, um misto de voleio e meia-bicicleta no interior da área que o goleiro do AEK mandou a escanteio de forma espetacular. Kaká levantou-se do gramado e a câmera fechou nele. Estava sorrindo, e isso é o mais importante. As caras fechadas e sérias da Copa estão sendo substituídas por sorrisos cada vez mais freqüentes.

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Já que falei nele, vale registrar com mais ênfase esta figura de grande jogador que está surgindo, o francês Yoann Gourcouff (se pronuncia Gurcuf). Foi o primeiro jogo dele como titular do Milan e surpreendeu a todos pela personalidade e pelo ótimo futebol. A distância até pode ser confundido com Kaká, tem o mesmo porte físico, um metro e 85, 79 quilos, joga com a cabeça em pé, se desloca com facilidade, passa bem, dribla bem e já foi designado como o cobrador de faltas e de escanteios por Carlo Ancelotti. Uma surpresa, mas nem tanto. Afinal este francês de 20 anos foi o líder da seleção do seu país, campeã da Europa sub 19 em 2005. Passou a ser disputado por vários grandes clubes da Inglaterra, da Espanha e da Itália mas acabou no Milan que pagou 3,5 milhões de euros ao Rennes, da Bretanha, França, onde Gourcuff começou e apareceu para o futebol. Filho do ex-jogador Christian Gourcouff, hoje técnico do pequeno Lorient, o garoto deve aparecer mais seguidamente como titular do MIlan e ao que tudo indica, na França vai herdar a camisa que até o dia 9 de julho foi de Zinedine Zidane.

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Mais duas para encerrar: o Milan continua querendo tirar Ronaldinho Gaúcho do Barcelona. Está servindo para ajudar nessa tarefa a aproximação entre Roberto Assis, irmão de Ronaldinho, e o rubro-negro italiano, pois Assis também é procurador de Ricardo Oliveira. O Milan teria oferecido 12 milhões de euros anuais para Ronaldinho, que atualmente ganha 9 milhões por ano no Barcelona, onde tem contrato até 2010. O que pega é a multa rescisória, 125 milhões de euros. No mínimo Assis irá conseguir um substancial aumento no Barça.

A outra é sobre a disputa pela presidência da UEFA, eleições marcadas para o ano que vem. Está encarniçada a disputa entre o atual presidente Lennart Johnsson e o ex-craque Michel Platini. Platini tenta conquistar os votos dos pequenos, pois o voto de San Marino vale tanto quanto o da Itália e o das Ilhas Faroe o mesmo que o da Inglaterra. Já o sueco aposta na política de resultados. Time que está ganhando não se mexe. O curioso é que muitos países tentaram lançar a candidatura de Beckenbauer, que ganharia fácil, mas o Kaiser não aceitou. Motivo: ele quer entrar para o Comitê Executivo da FIFA no ano que vem e sair candidato à sucessão de Blatter em 2011. A eleição de 2007 Blatter já ganhou.

Um abraço e até a próxima.
Escrito por Telmo Zanini em às
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